Paternidade e abandono: o que recebemos de nossos pais?

Paternidade, abandono e ancestralidade — Parte 1

Existe uma frase repetida por gerações: “pai é pai”. Parece uma afirmação óbvia, até começarmos a perguntar o que, de fato, transforma um homem em pai.

Durante muito tempo, nossa sociedade estabeleceu expectativas muito diferentes para homens e mulheres dentro de uma família. Da mãe esperava-se presença, cuidado, educação, alimentação, afeto e responsabilidade cotidiana. Ao homem, muitas vezes, bastava prover alguma coisa, aparecer quando possível e reivindicar para si o lugar de pai. Quando o casamento terminava, essa diferença se tornava ainda mais evidente: a mulher continuava sendo mãe todos os dias; o homem, em muitos casos, tornava-se visita.

Não escrevo sobre isso apenas como sacerdote ou como alguém interessado em discutir ancestralidade e tradição dos Orixás. Escrevo também como filho. Eu, Pai Thiago, fui atravessado por essa tradição masculina.

Minha mãe se casou, teve um filho (eu! rs) e o casamento terminou. Como aconteceu em tantas famílias, a separação dos adultos também produziu consequências na relação entre pai e filho. Mas minha história teve um desdobramento que muitas crianças não tiveram: outro homem escolheu ficar. Fui adotado, acolhido e educado por alguém que não precisava biologicamente assumir aquele lugar. Ele decidiu exercer a paternidade e, por isso, seria impossível contar a história do homem que me tornei sem reconhecer sua presença.

Minha experiência me ensinou uma distinção que considero fundamental: o sangue estabelece uma origem e que nem sempre é boa (infelizmente vejo muito isso em jogos de búzios), a paternidade precisa construir uma relação.

Pai biológico e pai de criação: afinal, o Que significa ser pai?

Falar sobre abandono paterno exige algum cuidado. Não se trata de estabelecer uma competição entre pai biológico, pai adotivo, padrasto ou qualquer outra configuração familiar. Trata-se justamente de questionar a ideia de que a biologia, sozinha, seja suficiente para definir uma experiência tão complexa quanto a paternidade.

Um homem pode participar da geração de uma criança e não participar de sua formação. Outro pode não ter qualquer vínculo genético com ela e estar presente na doença, na escola, nas dificuldades, nas descobertas e na construção de sua autonomia.

A paternidade acontece no cotidiano.

E existe ainda uma figura que não pode desaparecer dessa conversa: o avô.

Em muitas famílias brasileiras, sobretudo quando existe ausência paterna, são os avôs que acabam oferecendo uma referência masculina constante. Eles ajudam a criar, aconselham, corrigem, protegem, ensinam e, algumas vezes, ocupam silenciosamente um espaço que ficou vazio.

Uma criança aprende muito sobre o que significa ser homem observando os homens que estão ao seu redor. Ela percebe como eles tratam suas companheiras, como lidam com frustração, como demonstram carinho, como pedem desculpas, como reagem quando perdem e como tratam aqueles sobre os quais possuem alguma autoridade.

A presença também educa e a ausência também.

Talvez um avô nunca sente diante do neto para explicar o que é masculinidade. Ainda assim, pode ensinar durante anos simplesmente pela maneira como vive.

O que significa: ensinar um menino a “ser homem”?

Durante gerações, uma das funções atribuídas ao pai foi ensinar o filho a “ser homem”. E apesar de brutal aos olhos atuais essa frase pareceu por centenas de anos muito natural e quase ninguém se interessa em se perguntar o que ela de fato significa.

Meninos aprenderam que homem não chora, não demonstra medo, precisa saber brigar, conquistar mulheres, sustentar uma casa e jamais demonstrar fragilidade. Em determinados ambientes, a própria sexualidade do menino tornou-se instrumento de validação: comentários sobre o tamanho do pênis, piadas sobre virilidade, pressão pela primeira relação sexual e a quantidade de mulheres conquistadas aparecem como sinais de que aquele garoto finalmente “virou homem”.

Mas existe uma pergunta anterior a tudo isso: O que é ser homem?

Se precisamos responder recorrendo ao pênis, à força física, ao dinheiro, ao desempenho sexual ou à capacidade de dominar outras pessoas, talvez estejamos confundindo masculinidade com uma coleção de inseguranças que aprendemos a transmitir de uma geração para outra.

Pai não é quem mede o tamanho do pinto do filho ou o prepara para provar sua masculinidade aos outros.

Talvez uma das responsabilidades de um pai seja justamente libertar seu filho dessa necessidade permanente de provar que é homem.

Educar um menino deveria significar participar da formação de alguém capaz de responder pelas próprias escolhas. Alguém que saiba cuidar, assumir consequências, estabelecer limites, respeitar mulheres e outros homens, pedir desculpas, reconhecer seus erros, proteger sem controlar e amar sem transformar afeto em posse.

E se esse filho construir sua masculinidade de maneira diferente daquela que seu pai imaginou, continuará sendo seu filho. A paternidade não deveria existir para fabricar cópias.

O abandono paterno não começa necessariamente em uma geração

É aqui que a conversa se torna mais desconfortável.

Quando um pai abandona um filho, nossa primeira tendência é observar apenas aquela relação: existe o homem que partiu e a criança que permaneceu. Mas as histórias familiares raramente começam exatamente onde conseguimos enxergá-las.

Quem ensinou aquele homem a ser pai?

Que pai ele teve?

Como os homens daquela família demonstravam afeto?

O que acontecia quando um casamento terminava?

Como eram tratados medo, fracasso, sexualidade, autoridade e fragilidade?

Isso não significa transformar o passado em justificativa.

Um homem que cresceu sem pai não está condenado a abandonar seus próprios filhos. Da mesma maneira, descobrir que alguém foi ferido durante a infância não elimina sua responsabilidade pelas feridas que produziu quando adulto.

Compreender não é absolver. Mas existe uma diferença importante entre procurar culpados e procurar a origem de um padrão pois somente dessa maneira se consegue resolver finalmente a causa e não somente a dor.

Há famílias nas quais o abandono paterno atravessa gerações. Um homem cresce praticamente sem pai, torna-se pai sem jamais ter construído uma referência saudável de paternidade e pode acabar reproduzindo, conscientemente ou não, parte da ausência que experimentou. É justamente por isso que algumas perguntas precisam ser feitas.

Como meu avô tratou meu pai? O que meu pai recebeu dele? Que modelo de masculinidade existia naquela família? O que foi transmitido sem jamais ser dito?

E, finalmente: o que dessa história chegou até mim?

Quando paternidade encontra ancestralidade

É nessa pergunta que a discussão sobre pai e filho começa a ultrapassar a própria paternidade.

Porque ancestralidade não é apenas aquilo que gostamos de contar sobre nossos antepassados.

Também recebemos silêncios, medos, maneiras de amar, formas de reagir ao conflito, concepções sobre masculinidade e comportamentos que podem existir numa família muito antes de alguém perceber que está repetindo alguma coisa.

Quando falamos de ancestralidade nas religiões de matriz africana e na tradição dos Orixás, precisamos abandonar uma visão infantilizada segundo a qual respeitar aqueles que vieram antes significa considerar tudo o que fizeram correto. Não, não significa!

Existem heranças que merecem ser preservadas porque sustentaram nossas famílias durante gerações: conhecimentos, valores, memórias, formas de cuidado e maneiras de compreender o mundo. Mas reconhecer essa herança também exige maturidade para admitir que nem tudo aquilo que recebemos merece ser transmitido.

Talvez parte do amadurecimento esteja justamente em conseguir olhar para nossos pais para além dos personagens que ocuparam em nossa infância. Antes de serem “pai” e “mãe”, foram pessoas que também tiveram pais, cresceram dentro de determinadas famílias, aprenderam maneiras específicas de amar e receberam suas próprias ausências, medos e feridas. Perceber isso não apaga aquilo que fizeram conosco, tampouco transforma compreensão em absolvição. Apenas nos permite enxergar que uma história familiar quase nunca começa na geração em que conseguimos percebê-la.

E é justamente aí que surge uma questão mais difícil. Compreender de onde veio uma ferida pode explicar por que determinadas coisas aconteceram, mas chega um momento em que a explicação já não basta. Se aquilo chegou até nós, precisamos decidir o que faremos com isso.

É nesse ponto que a discussão sobre paternidade deixa de ser apenas uma conversa sobre pais e filhos e entra definitivamente no território da ancestralidade. Porque Egúngún nos obriga a olhar para aqueles que vieram antes, enquanto Orí devolve a pergunta para aquele que está aqui agora. Recebemos uma história, mas até onde ela determina aquilo que seremos?

Essa questão também muda a maneira como compreendemos o Oráculo de Ifá e o Jogo de Búzios. Se procuramos um oráculo apenas para descobrir o que vai acontecer amanhã, talvez estejamos fazendo perguntas pequenas demais diante de um problema muito maior. Há momentos em que compreender o próprio caminho exige perceber quais histórias continuamos repetindo sem sequer saber quando começaram.

Mas existe um limite importante entre reconhecer ancestralidade e utilizar a espiritualidade para explicar todas as nossas dores. Um ancestral que feriu precisa ser honrado? Um padrão familiar pode interferir em nossas escolhas? Até onde vai aquilo que herdamos e onde começa a responsabilidade do nosso próprio Orí? E qual é, de fato, o lugar de Ifá diante de questões humanas como abandono, trauma e pertencimento?

É a partir dessas perguntas que continuaremos na segunda parte.

Porque talvez a questão mais importante da ancestralidade não seja apenas descobrir de onde viemos, mas compreender o que chegou até nós, o que merece permanecer e o que precisa finalmente terminar em nossa geração.