Um dia nós seremos os ancestrais — Parte 2

Existe uma inversão sobre a qual pensamos pouco quando falamos de ancestralidade. Passamos boa parte da vida olhando para trás, queremos saber quem eram nossos ancestrais, de onde vieram, no que acreditavam, quais histórias viveram e, principalmente, o que deixaram em nós.

É curioso porque quase nunca fazemos o movimento contrário. Um dia, seremos nós aqueles que vieram antes.

Se tivermos filhos, sobrinhos, afilhados, alunos, filhos espirituais ou simplesmente pessoas cuja formação foi atravessada pela nossa existência, chegará um tempo em que alguém tentará compreender a própria história olhando para aquilo que fizemos com a nossa.

Ancestralidade, portanto, não diz respeito somente ao passado, ela também é uma responsabilidade com o futuro.

Então talvez a questão central da paternidade não seja descobrir se fomos capazes de produzir filhos parecidos conosco, na verdade é sobre saber que lembrança da nossa presença permanecerá quando não estivermos mais aqui.

Não importa o tamanho do pênis do seu filho, não importa se ele corresponde ao modelo de masculinidade que ensinaram a você, não importa se joga futebol, se gosta das mesmas coisas que você ou se escolheu uma vida completamente diferente daquela que você imaginou.

A pergunta é muito mais difícil:

Quando seu filho precisar compreender quem ele é, que parte de você ele encontrará dentro dessa história?

Encontrará medo? Silêncio? Humilhação? Ausência?

Ou encontrará alguém que, mesmo imperfeito, decidiu permanecer?

Nenhum pai será perfeito e a aAncestralidade nunca exigiu perfeição.

Mas paternidade exige responsabilidade afinal de contas gerar uma vida pode acontecer em um instante.

Tornar-se pai acontece durante uma vida inteira.

Nossa homenagem é para aqueles que compreenderam essa diferença.

Aos pais biológicos que permanecem. Aos pais adotivos que escolheram assumir uma história. Aos padrastos que transformaram convivência em vínculo. Aos avôs que tantas vezes ocuparam silenciosamente um lugar fundamental. E a todos os homens que compreenderam que cuidar de uma criança não diminui sua masculinidade: talvez seja justamente uma das situações em que seu caráter mais aparece.

E para aqueles que cresceram atravessados pela ausência paterna, fica outra reflexão.

Você não pode escolher aquilo que recebeu, mas pode participar da decisão sobre o que continuará através de você.

Esse talvez seja um dos encontros mais profundos entre Orí e ancestralidade.

Somos continuidade, mas não precisamos ser repetição.